RITUAIS TERAPÊUTICOS: UMA ABORDAGEM POSSÍVEL *

 (Artigo escrito por Roseli Merlo, psicóloga clínica)

Há aproximadamente três milhões de anos, o homem dependia principalmente da caça e os primeiros rituais surgiram para apaziguar a natureza e assegurar a própria sobrevivência. Em alguns povos mais recentes, historicamente falando, isto significava entender o dia, a noite, as fases da lua ou a passagem das estações. Os rituais, então, tiveram sua origem no intuito de garantir o nascimento do sol, o aparecimento das chuvas e a fertilidade da terra.

Os rituais e seus símbolos eram utilizados instintivamente e, uma vez que o pensamento mágico era a forma primordial do pensamento humano, os rituais davam-se numa conexão espaço/tempo (magia simpática) ou na similaridade do fenômeno (magia imitativa). De maneira simbólica, um nível de realidade era ritualmente criado e transformava-se na realidade consensual do cotidiano, fundindo o subjetivo e o objetivo.

Como herança ancestral essa qualidade de fusão nos pertence desde a infância, o desenvolvimento da consciência, no indivíduo e nas culturas, modificou as formas pelas quais o símbolo e os rituais são usados, porém a qualidade inata do pensamento mágico é, a nosso ver, o que permite ao símbolo, ao ritual, ao mito e à religião manifestarem-se em nossas vidas.

Quando dizemos ‘em nossas vidas’, não o fazemos somente em relação ao indivíduo, mas também no que diz respeito à família, como um todo idiossincrático. É no terreno fértil da família que aquela herança ancestral, da qual faz parte o ritual, encontra condições de germinar e perpetuar.

Cremos que os rituais perpetuam-se na família sem, contudo, cristalizarem-se devido a sua característica de flexibilidade, como afirma Segalen (2002, p.15) “uma das principais características do rito é a plasticidade, a sua capacidade de ser polissêmico, de acomodar-se à mudança social”.

A família, assim como os rituais, não pode ser entendida como unidade estática apesar de sua estrutura e funcionamento mais ou menos rígidos, mas sim como um organismo em constante processo de mudança.

Pensamos, enfim, que não se deve dissociar movimento, desordem, ordenação, crescimento e mudança das etapas pelas quais passam a família e seus membros como organismos vivos ao longo do tempo.

Durante essas fases, as mudanças exigidas podem significar perdas que de acordo com a perspectiva sistêmica são consideradas como uma transição maior, que rompe os padrões de interação vigentes e requisitam uma reordenação, tanto pessoal como familiar.

Acreditamos que o uso de rituais terapêuticos possa ser uma ferramenta valiosa nos momentos de ruptura ou paralisação que se oferecem na passagem de um ciclo vital a outro; além disso, um auxílio para as famílias menos ritualizadas ultrapassarem momentos de crise, sofrimento e mudança; como também um alento para aqueles momentos da vida em que não existem rituais normativos.

*excerto de monografia pós-graduação PUC-SP/2009

 

ROSELI MERLO

 psicóloga clínica

 
 
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