O DILEMA DA EMOTIVIDADE

 (Artigo escrito por Roseli Merlo, psicóloga clínica)

 

Há muito tempo as pessoas sentem-se inseguras em face de sua emotividade. Um dos grandes dilemas que cada um de nós precisa resolver, à medida que crescemos, é como lidar com nossas emoções.

Desde cedo estamos aprendendo lições a respeito da emoção. Nossos outros significativos* nos ensinam de muitas maneiras como lidar com nossas emoções. Eles, entretanto, nos ensinam geralmente o que aprenderam a duras penas. Esses mestres, então, moldam nossas respostas emocionais e nos ensinam como ser, fazendo o quanto podem, sem contar com nenhum tipo de manual. Após esse período infantil de aprendizados teremos desenvolvido nossa consciência emocional e empatia ou não; teremos estabelecido aquela confiança básica ou desconfiaremos de tudo e todos.

Observando mais atentamente percebemos que a questão da emoção é mais que um tema familiar ou escolar, é um dilema histórico. Desde o princípio da história do pensamento intelectual ocidental considerou-se a emoção e a razão como polos opostos. Temos como herança a máxima do filósofo francês René Descartes – “Penso, logo existo”, que coloca claramente o pensamento na função de maestro da orquestra.

De um lado, ao longo da vida pudemos ouvir: seja razoável, controle-se; por outro temos recebido também a mensagem oposta: seja espontâneo, siga o que diz seu coração ou intuição. Como postulou Pascal, outro filósofo francês, - “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Então, como devemos agir? Como conciliar nossas emoções com as emoções alheias?

Os avanços no estudo das emoções nos colocam em condições de perceber seu papel fundamental em um modo de vida saudável. Não se trata de nos desfazermos da emoção que nos afetou num processo catártico, nem tampouco reprimi-la totalmente. Trata-se de conceder à emoção um papel de igual importância ao que se outorga ao pensamento e à ação.

Não que a experiência da emoção, por si só, tenha como resultado uma ação mais sábia. O que faz a diferença é o significado, o sentido que damos a nossa experiência emocional. Necessário se faz a consciência de nossas emoções para que possamos informar a nossa razão como agir, integrando a emoção com nossa compreensão da mesma, de nós e do outro.

Sabedoria e não inteligência é conseguir equilibrar aparentes opostos, razão e emoção, em um todo unificado – nós mesmos.

 

ROSELI MERLO

 psicóloga clínica

*George Herbert Mead criou o conceito de “outros significativos” (aqueles presentes  na infância do indivíduo), sendo as suas atitudes caminho para a formação social da criança que com eles convive.

 

 

 
 
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