A simbiose mãe/bebê faz parte do desenvolvimento da vida

 Escrito por Valter Guerra Hadad, psicólogo clínico

Todo profissional da psicologia deve ter uma abordagem teórica para balizar o seu trabalho, nesse sentido, a minha é de base psicanalítica, mais especificamente dentro dos conceitos de Donald Woods Winnicott (1896-1971), médico pediatra e psicanalista nascido em um lar muito bem estruturado, tanto economica quanto afetivamente. Para ele o ambiente era visto como um condicionante ao desenvolvimento do ser e que existe uma tendência natural à saúde, sendo assim, trazemos um potencial inato para amadurecer, se integrar, entretanto, não basta ter a tendência inata, se vai ocorrer ou não dependerá do ambiente que será facilitador para esta ocorrência, fornecendo cuidados suficientemente bons que inicialmente são propiciados pela mãe.

Há um estágio no desenvolvimento psíquico da criança que, enquanto bebê,  é o da adaptação à realidade, no qual a mãe exerce um papel ímpar em ajudar a criança a sair da subjetividade total e a atentar para a realidade nova que está surgindo.

A mãe participa de uma verdadeira unidade com o seu bebê, regredindo,  “entendendo” e atendendo, todas as necessidades daquele ser que está numa etapa que Winnicott descreveu como “dependência absoluta”, isso ajuda a formar sua mente, fazendo com que este processo seja bem feito e, se houver falhas ambientais precoces e repetitivas, ocorrerá o congelamento da situação de fracasso. A tarefa da mãe é oferecer um suporte adequado para que as condições inatas alcancem um desenvolvimento sem intercorrências. A base da estabilidade mental depende das experiências iniciais com a mãe e, principalmente, de seu estado emocional. Se a mãe se adequar de uma forma suficientemente boa, não irá interferir no desenvolvimento da criança.

A separação da simbiose mãe/bebê é inevitável e saudável para ambos. Por conta das nossas leis trabalhistas, as mães voltam para o trabalho por após 4 meses de vida do bebê, e isso é parte integrante do estágio que adapta o bebê (e a mãe) à realidade; colocando em termos práticos, é o desmame que Freud chamou de primeira cisão do nascimento ou a ruptura entre a vida uterina e a vida externa.

Esta separação deve ser permeável e muito bem definida, para que haja relacionamento familiar saudável, pois, caso exista uma fronteira rígida, poderá ser sentida pelo bebê como um sinal de há alguma ameaça. É preciso o delineamento eu-outro, mas também há de ter o permeamento, quanto mais facilitadora for a mãe em reconhecer os seus processos, maior é a chance de seu bebê diferenciar-se: “quando me identifico eu me separo e torno-me um outro”.

Sabemos que bebês e crianças querem tudo, mas só não querem sentir a frustração. Más notícias mamãe, a frustração é inevitável e a única preocupação materna primária é um constante estado de atenção. O bebê quando se identifica com a mãe se volta para o pai como um outro e isso Freud denominou de “identificação primária” e é super positivo que aconteça dessa forma.

Por volta dos oito meses o bebê passa a estranhar tudo e a todos; é aí que ele passa a perceber outros que não é ele; a ligação da criança com a mãe marca por toda a vida.

Mamãe, a simbiose bebê/mãe faz parte do desenvolvimento da vida, porém, entenda que sair desta relação fusionada é inevitável e importante para ambos, pois a “sua majestade o bebê” terá que distanciar um pouco do trono para que você volte a ser mulher e dê continuidade a sua vida e, também, você e seu marido, aos poucos, voltem a ser um casal. Destaco que o homem também tem dificuldade de retornar à mulher que agora é mãe.

Pode parecer paradoxal, todavia, só nos separamos daquilo que foi bom; aquilo que foi difícil e insatisfatório fica difícil de separar, um laço que pode ser apertado demais incomoda.

Não sinta-se culpada por ter que deixar seu bebê tão precocemente, tenho certeza que o seu amor por ele irá direcioná-la para que alguém possa cuidar, não como você que é única, mas de uma maneira afetiva, organizada e atenciosa. Tampouco faça compensações materiais para seu bebê, com o objetivo de aliviar-se de uma certa “culpa”.

 A vida continua, agora muito mais maravilhosa e feliz, e seu bebê irá desenvolver-se dentro do que é natural e o seu amor e dedicação estará entalhado no inconsciente dele, ele sabe disso.

 
 
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