Um ensaio para se pensar sobre ética e subjetividade
Ensaio escrito por Valter Guerra Hadad


Zygmunt Bauman, professor emérito de sociologia na Universidade de Leeds é autor de vários livros sobre a teoria social da modernidade e da pós-modernidade, em uma de suas inúmeras entrevistas disse: "...não acredito mais na possibilidade (e até no desejo) de uma 'sociedade perfeita', mas acredito numa 'boa sociedade', definida como a sociedade que se recrimina sem cessar por não ser suficientemente boa e não estar fazendo o suficiente para se tornar melhor..."
Bauman fala que os grandes temas da ética não perderam nada de sua força: simplesmente precisam ser revistos e tratados de modo inteiramente novo. Nossa era, sugere ele, pode ainda representar uma alvorada e não um entardecer para a ética.
Agora, desfeitos do cárcere que a modernidade nos impôs, podemos ficar de frente com a capacidade ética humana sem ilusões. Apesar de que tudo isso não torne a vida moral mais fácil, pode-se ao menos sonhar em torná-la um pouco mais ética, segundo Bauman.
É necessário acreditar na idéia de que as pessoas são indivíduos livres e, nesse sentido, somos indivisíveis, separados, independentes uns dos outros e proprietários de nossos próprios destinos e, portanto, construímos o nosso dia seguinte, o nosso futuro. Um pensamento do "eu" por inteiro, não divisível.
Somos construídos dentro de um contexto, esse contexto tem haver com a nossa subjetividade, desse modo, o indivíduo se constitui como sujeito dentro de um contexto social e isso leva o indivíduo à sempre se apresentar com conceitos pré estabelecidos (pré conceitos). A noção de subjetividade está relacionada à história do humanismo moderno, que acreditou que o homem era o centro do universo e livre para determinar seu destino.
Nós não somos sempre os mesmos, assim como a subjetividade são os modos de subjetivação, novas configurações são produzidas e adquiridas, mas as que já temos não são perdidas. As idéias não podem mudar do dia para noite, as idéias antigas não mudam, o que aprendemos e adquirimos não muda, o que ocorre é que somos afetados pelas nossas experiências de vida, vivemos hoje com a história da civilização humana, que faz parte da nossa história, coisa de quatro ou cinco mil anos e também convivemos com as mais modernas tecnologias. Há algo na vida que nos transforma, fisicamente e afetivamente. Nos coloca de uma outra maneira no mundo.
Na antiguidade as pessoas pensavam o mundo diferente de nós, hoje o apego ao mundo é tamanho que não há projetos pensando na coletividade, por exemplo, poluição, desmatamento, etc.
Em 1930, Sigmund Freud escreveu "O mal estar na civilização", num cenário onde homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de ser feliz por uma porção de segurança, renunciando ao princípio do prazer e aceitando o princípio da realidade obedecendo aos preceitos impostos pela civilização.
Naquela época, necessitava-se de um propósito para se viver, sem ele a vida perdia o seu valor; desse modo a religião conseguiu assumir esse papel. O Homem sempre buscou a felicidade, e esta pode apresentar duas facetas: uma ausência de desprazer ou um sentimento de prazer. A decisão do propósito de vida é da ordem do princípio do prazer e o nosso aparelho psíquico é dominado por ele desde a primazia do ser. Entende-se que a felicidade é uma satisfação repentina das necessidades represadas, entretanto, quando da permanência da felicidade, o contentamento torna-se frágil. O prazer deve ser fugaz e não o produto de um estado de coisas. Não suportamos a felicidade contínua, citando Goethe, “nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos”.
Somos hostis com a civilização porque nos tornamos neuróticos por não tolerar as restrições impostas pela sociedade, a qual nos impede o alcance da felicidade. Percebe-se que apesar de dominar-se a natureza não se chegará ao objetivo final do propósito do viver, que é ser feliz. A felicidade é, na sua essência, subjetiva.
A civilização exige beleza, limpeza e ordem, inspirada na natureza. Quanto mais ideal, religião e filosofia, maior é o índice de civilização. A civilização regula os relacionamentos sociais e, caso eles não existissem, os nossos instintos primários destacar-se-iam. 
A troca do poder do indivíduo pelo poder da comunidade inaugura a civilização, que é construída pela renúncia do instinto, conseqüentemente se percebe com nitidez a restrição da liberdade individual, mesmo assim o Homem sempre irá defender a sua liberdade.
Sempre haverá a destruição da natureza para a construção da civilização. Sem a agressividade os Homens sentem-se desconfortáveis. É difícil viver na civilização porque é imposto ao sacrifício da sexualidade e, também, ao da agressividade. O homem primitivo achava-se mais confortável por não conhecer as restrições do instinto, por outro lado, o Homem civilizado abriu mão de uma parcela de possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança. O controle da natureza pelos Homens deu-lhes o poder de exterminá-los, este é o principal mal-estar na civilização traduzido por inquietação, infelicidade e ansiedade.
Agora, refletindo sobre o novo cenário, ou seja, 82 anos após a escrita de Freud, depois da II Grande Guerra, dos movimentos sociais dos anos 60, da guerra do Vietnã, da guerra fria, da queda do socialismo no leste europeu, do crescimento do terrorismo, do avanço do poderio americano, da queda das torres gêmeas, dos “Big Brother” e a troca do privado pelo público, da globalização, enfim, diante de tantas mudanças, quer dizer, evoluções históricas, lembrando Zygmunt Bauman no livro “O mal-estar da pós-modernidade”, pergunto: as perdas e ganhos trocaram de lugar, pois hoje homens e mulheres estão trocando aquela parte de possibilidades de segurança por uma grande parte de liberdade?
Somos nós que criamos a mídia para nos seduzir, portanto não devemos culpá-la.
Criamos as coisas que se tornam imprescindíveis para o dia a dia. O racional (tecnologia) caminha com passos ultra-rápidos, porém o emocional caminha à passos de paquiderme.
O mundo está ai e não é do mundo que vem os valores e o sentido. É de mim. Estou aqui lançado e eu quem dou conta disso. É dar sentido às coisas. Tudo é uma construção humana. Não existe responsabilidade da mídia, governo, etc, eles não são entidades, pessoas, “alguéns”. Somos nós que damos “vida” à mídia, ao governo, etc.
Para vivermos confiantes precisamos de Segurança, Certeza e Garantias, para tanto é necessário criar rotinas para que possamos pensar que temos garantias, de que as coisas obedecem a um certo ritmo. O planejamento da rotina nos dá “a ilusão” de que temos um lugar seguro, um porto seguro.
 

 
 
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